Há cinco anos, Maryann Abbajay assumiu o cargo de Chief Revenue Officer da SAP SuccessFactors, uma divisão da empresa alemã focada em soluções de gestão de capital humano.
No decorrer da SAP Connect 2025, a responsável explicou à Executive Digest como a multinacional alemã está a trabalhar as suas aplicações naquele departamento.
Quais são os maiores desafios para a SuccessFactors?
Vou partilhar um excelente exemplo na área de Recursos Humanos (RH). Na SAP, identificámos uma falha importante nos processos de recrutamento em grande escala e percebemos que, se não encontrássemos uma solução, iríamos perder clientes importantes nesta área. Assim, desenvolvemos uma plataforma que nos permite gerir recrutamento de alto volume, incluindo funcionalidades como o agendamento de entrevistas via SMS e muitas outras capacidades que, simplesmente, não tínhamos.
Vive e trabalha nos Estados Unidos, vê vantagens ou desvantagens no facto da SAP ser uma empresa sedeada na Europa?
Tenho de dizer que, nos últimos dois anos, tem sido ótimo pertencer a uma empresa europeia. Como pode imaginar, temos ótimas relações com os Estados Unidos, tanto a nível governamental, comos nos setores público e privado. O primeiro contrato da SAP com um cliente nos Estados Unidos deu-se no final da década de 70 do século passado, início de 1980. Por isso, temos uma presença consolidada e fazemos questão de interagir regularmente com o governo dos EUA.
Na SAP é na área dos Recursos Humanos que existe um maior avanço no uso da Inteligência Artificial, porquê?
Porque, honestamente, há tantas oportunidades para a melhoria da eficiência… Se pensarmos numa coisa simples como a correspondência de competências na análise de currículos e reduzi-los para os cinco, dez melhores, isso é algo que quando feito com Inteligência Artificial é brilhante. Outro exemplo: geralmente, a capacidade de serviço de apoio ao cliente está sob alçada dos RH e nove em cada dez perguntas feitas são: «qual é a minha licença de maternidade?», «quantos dias de férias tenho?» ou «não entendo algo no meu recibo de vencimento». Ter isto automatizado com a nossa ferramenta de IA traduziu-se numa enorme poupança de tempo. As pessoas que antes se ocupavam a responder a esses pedidos podem agora fazer algo de maior valor. Acho que é por isso temos visto mais IA na área de RH.
E como é que as pessoas estão a reagir a essas mudanças?
Temos uma Chief Human Resources Officer – a Gina Vargiu-Breuer -, que é agressiva no uso da nossa tecnologia, e adoramos isso. Tudo isso foi impulsionado por ela. Do ponto de vista do funcionário, acho que houve um «tens a certeza de que querem fazer isto?» ou um «não tenho a certeza sobre isto», mas assim que experimentaram, passaram a adorar.
E entenderam que com a IA é um trabalho mais colaborativo do que de substituição.
Sim, exatamente isso. Não vejo a IA a substituir um gestor, por exemplo. Sei que existem algumas experiências a decorrer noutras empresas, mas veremos o resultado. Não quero dizer que vá falhar, mas acho que vai ser difícil, é preciso conexão humana.
E como é que vê a evolução do trabalho remoto?
Durante a pandemia, e do meu ponto de vista e da SAP, adotámos uma política de direito à flexibilidade. Podíamos ficar em casa, podíamos vir trabalhar para o escritório, o que fosse. Depois da COVID-19, a nossa responsável de Recursos Humanos chegou e disse que era necessário voltarmos ao escritório. Nos Estados Unidos temos a regra de quem vive até 65 quilómetros de um escritório da SAP, tem de ir ao local de trabalho pelo menos três dias por semana, dias esses acordados com o seu gerente. E descobrimos que isso funciona bem.
Oferece flexibilidade ao funcionário, mas mantém-no responsável. Também ajuda a uma melhor colaboração entre os membros da sua equipa. E não vejo isso a mudar. Não nos vejo a voltar a um ritmo hardcore de cinco dias por semana no escritório.
E o que lhe parece a semana de quatro dias, que se encontra em discussão em alguns países europeus?
Não sei… Já temos uma espécie de sexta- -feira flexível, que permite não agendar muitas reuniões e fazer algum trabalho mais intelectual. Estamos a usar IA para tarefas financeiras aborrecidas, para que possamos remover muitos dos pedidos de RH, especialmente no que diz respeito ao processamento de salários, porque 80% destes estão geralmente relacionados com esta função. Portanto, se conseguirmos reduzir isso em um terço, é uma enorme poupança.
Quais serão as competências mais importantes num futuro próximo?
Isso é fácil: IA. É melhor adotá-la e aprender a usá-la de forma eficaz. Quem não o fizer ficará para trás. Será muito semelhante ao que aconteceu quando apareceu o e-mail. Aliás, quando comecei a trabalhar, o e-mail era opcional… Ou outro exemplo de mudança, quando os telemóveis da Blackberry foram substituídos pelos iPhone, muitas pessoas resistiram à mudança por bastante tempo, porque não tinham acesso à loja de aplicações da Apple.
O seu conselho então é: aprender a melhorar as suas competências e de preferência com a ajuda das empresas?
Devem ajudar, absolutamente. Sinto que, mesmo no nosso dia a dia, se pesquisamos algo no Google, aparece-nos uma resposta com apoio da IA. Ou seja, é sobretudo, sobre como tirar o melhor partido das capacidades e usá-las.
* O Jornalista viajou a convite da SAP










